Direito fundamental à nacionalidade, dever de decidir e os limites jurídicos da inércia administrativa.
1. O PROBLEMA REAL
Há processos de nacionalidade portuguesa que permanecem parados por mais de dois ou três anos (temos casos de 4 anos sem decisão), na mesma fase, sem exigência formal, sem despacho e sem qualquer decisão.
O requerente:
não sabe o que falta;
não tem prazo;
não recebe resposta;
e vê um direito fundamental suspenso por inércia administrativa.
Isso não é normal. E não é juridicamente aceitável.
2. O ERRO COMUM DA ADMINISTRAÇÃO
A Administração trata o procedimento como se:
não tivesse dever de decidir;
não estivesse vinculada a prazos razoáveis;
pudesse manter o processo indefinidamente em “análise”.
Esse erro nasce de uma falsa premissa: a de que a ausência de prazo expresso autoriza a ausência de decisão.
E isso é juridicamente errado.
3. ENQUADRAMENTO JURÍDICO
3.1. Direito material
A nacionalidade portuguesa:
é direito fundamental;
tem natureza declaratória, não concessiva;
não depende de conveniência administrativa.
3.1. Direito material — o que isso significa na prática?
Quando falamos em direito material à nacionalidade portuguesa, estamos falando do conteúdo do direito em si, e não do caminho burocrático para exercê-lo.
É aqui que nasce a maior confusão — inclusive dentro da Administração.
Vamos por partes.
A nacionalidade portuguesa é direito fundamental
Direito fundamental é aquele que define quem a pessoa é, não apenas o que ela pode fazer.
A nacionalidade não é um benefício administrativo como:
um alvará,
uma licença,
um visto,
uma autorização temporária.
Ela está ligada à identidade civil, à personalidade jurídica e à ligação do indivíduo ao Estado.
Em termos simples: não é algo que o Estado “dá” quando quer — é algo que o Estado deve reconhecer quando a lei diz que existe.
No plano jurídico, a nacionalidade integra:
direitos de personalidade;
direitos de identidade pessoal;
direitos constitucionalmente protegidos.
Por isso:
não pode ser relativizada por conveniência administrativa;
não pode ficar indefinidamente “em análise” ou “para decisão”;
não pode ser suspensa pelo silêncio do Estado.
A Constituição impõe:
direito à decisão,
tutela jurisdicional efetiva,
boa administração.
Quando a Administração não decide, viola um direito fundamental, não apenas um prazo.
A nacionalidade tem natureza declaratória, não concessiva
Esse ponto é central — e frequentemente mal compreendido.
Pense assim:
Uma pessoa nasce filha de português.
Esse vínculo existe desde o nascimento.
O processo não cria esse vínculo.
O processo apenas declara oficialmente algo que já existe.
👉 O papel do Estado é parecido com o de um cartório que registra um nascimento:
o bebê não nasce porque foi registrado;
ele nasce antes — o registro apenas reconhece isso.
Juridicamente, estamos diante de um ato declaratório, e não constitutivo.
Isso significa:
o direito preexiste ao procedimento;
a decisão administrativa não cria a nacionalidade;
ela apenas reconhece uma situação jurídica já formada.
Consequência prática importantíssima:
o Estado não tem liberdade política para escolher reconhecer ou não;
se os requisitos legais estão preenchidos, a decisão é vinculada.
Não se trata de “se” a nacionalidade será reconhecida, mas de quando e como o Estado cumprirá o dever legal.
Figura autoritária da Conservatória do Registo Civil de Portugal
3️⃣ A nacionalidade não depende de conveniência administrativa
Aqui ocorre o maior abuso prático.
A Conservatória não pode dizer, expressa ou implicitamente:
“tem muita demanda”
“estamos sem pessoal”
“esse processo é complexo”
“vamos analisar quando for possível”
Nada disso suspende um direito fundamental.
👉 Falta de estrutura do Estado não pode ser transferida ao cidadão.
No plano jurídico:
a Administração atua sob competência vinculada, não discricionária;
não há margem para juízo de oportunidade ou conveniência;
o silêncio administrativo, quando prolongado, é ilícito.
A Administração não escolhe:
quando decidir,
se decidir,
em que ordem decidir sem critério legal.
Quando o processo está instruído:
surge o dever jurídico de decidir;
a omissão passa a ser violação continuada de direito.
📌 Por isso, o contencioso não é “atalho” — é instrumento legítimo de reposição da legalidade.
4️⃣ Síntese didática
Em uma frase para o leigo: A nacionalidade portuguesa não é um favor do Estado, é o reconhecimento oficial de um direito que já existe por lei.
O direito à nacionalidade, quando preenchidos os requisitos legais, é direito fundamental de natureza declaratória, sujeito a decisão administrativa vinculada, sendo ilegítima qualquer suspensão baseada em conveniência, inércia ou organização interna do Estado.
3.2. Procedimento administrativo
No direito administrativo português:
todo procedimento deve culminar em decisão;
a Administração está vinculada ao dever de decidir em prazo razoável;
o silêncio prolongado configura ilegalidade por omissão.
3.3. Hermenêutica aplicada
A interpretação correta não é:
“não há prazo, logo posso esperar”
Mas sim:
“não há prazo expresso, logo aplica-se o critério da razoabilidade e da proporcionalidade”.
Isso é hermenêutica funcional, não retórica.
4. A TESE JURÍDICA
A manutenção de processos de nacionalidade portuguesa parados por anos, sem decisão e sem exigência formal, configura violação do dever de decidir e pode justificar provocação administrativa e judicial.
Imperador da justiça no tribunal
5. PROVA E CADEIA DOCUMENTAL
Para sustentar essa tese, normalmente já existem nos autos:
documentação completa do requerente;
prova do vínculo com o ascendente português;
inexistência de exigência pendente;
histórico temporal do processo.
O problema não é probatório. É procedimental.
6. COMO PETICIONAR NA PRÁTICA
6.1. Checklist prévio
☐ Processo parado há mais de 12–24 meses
☐ Mesma fase, sem exigência ativa
☐ Documentação já integralmente apresentada
☐ Ausência de decisão formal
6.2. Estrutura técnica da petição
Identificação do processo e da fase
Histórico temporal objetivo
Enquadramento do dever de decidir
Demonstração do excesso de prazo
Pedido de decisão em prazo razoável
(estrutura — não modelo fechado)
7. O QUE NÃO FAZER
Não aceitar o silêncio como normal
Não “repetir documentos” sem critério
Não peticionar de forma emocional
Não judicializar sem antes provocar corretamente a Administração
8. RESULTADOS OBSERVADOS
Na prática, esse tipo de atuação costuma gerar:
movimentação do processo;
despacho formal (positivo ou negativo);
criação de pressuposto para escalada judicial.
Processo parado não é estado neutro. É ato administrativo omissivo.
9. CONCLUSÃO
O procedimento administrativo não pode se transformar em limbo jurídico.
Direito fundamental exige:
decisão,
motivação,
e responsabilidade administrativa.
No próximo artigo, analisarei quando o pedido administrativo de decisão se torna insuficiente e a via judicial passa a ser necessária.
10. MATERIAL COMPLEMENTAR
Guia técnico: Checklist para identificar excesso de prazo em processos de nacionalidade portuguesa (Acesso mediante nome e e-mail, com consentimento para recebimento de conteúdos editoriais)
Advogado ítalo-luso-brasileiro, com tripla nacionalidade, atuação há mais de duas décadas na advocacia, sendo mais de 10 anos dedicados a processos de nacionalidade portuguesa e italiana, com prática em Direito Registral Público Internacional, com foco no registo civil português e atuação perante conservatórias e Tribunais Administrativos em Portugal. DNA Cidadania.
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